Retrato de Frei Manuel do Cenáculo, c. 1887

Entre os textos contemporâneos aos acontecimentos ocorridos em Évora durante a primeira invasão francesa que culminaram, em Julho de 1808, na tomada e saque da cidade, com elevado número de mortos entre a população, talvez o de maior cunho pessoal seja o escrito pelo mão do então arcebispo de Évora, D. Frei Manuel do Cenáculo.
Como o recordou com alguma acrimónia, foi o historiador Gabriel Pereira quem, pela primeira vez, publicou o texto “A Memória do Saque de Évora em 1808” (no Manuelinho n.º 119 de primeiro de Maio de 1883 e seguintes). Poucos anos depois, o Município de Évora organizou uma homenagem a Frei Manuel do Cenáculo, no âmbito da qual fez distribuir o texto graciosamente aos habitantes da cidade. Nessa segunda edição, a cargo do António Barata, então vereador do Município, a narrativa recebeu o extenso e imperfeito título de “Memória descritiva do Assalto, Entrada e Saque da Cidade de Évora pelos Franceses em 1808”.
António Barata, ao publicar o texto como homenagem, sentiu necessidade, pela própria natureza polémica da narrativa de Frei Manuel do Cenáculo de, na introdução, reforçar o carácter heróico da acção do arcebispo que teria sido o principal responsável por numa correlação de forças estremamente desvantajosa proteger a população da cidade.

Escrita num período de crise social profunda, onde novos ideais políticos andam a par e passo com o caos provocado pela guerra, a narrativa de Frei Manuel do Cenáculo demonstra com uma clareza trágica o carácter conservador do pensamento político do Arcebispo e a falência dos seus ideais de regeneração cultural das elites.