Detalhe dos azulejos de António de Oliveira Bernardes, 1716.No caso da Misericórdia de Évora, a função estruturante do espaço foi desempenhada pelo trabalho do mestre entalhador Francisco da Silva, que ultrapassando largamente o primeiro prazo previsto de um ano e meio, estava em vias de conclusão nos finais de 1714.

A partir da finalização desta empreitada fazem-se as encomendadas das telas para a nave ao pintor Francisco Lopes Mendes, e no ano seguinte o mestre ladrilhador Manuel Borges desloca-se a Évora, levando consigo uma planta rigorosa com as medidas e outras indicações que permitem a António de Oliveira Bernardes respeitar o mesmo ritmo estabelecido pelas molduras em talha dourada na parte superior da nave, dando continuidade às pilastras dos atlantes através de pilastras coríntias entre barras com enrolamentos de folhas de acanto.

É surpreendente que, para um programa de renovação iconográfico e artístico completo do interior da Igreja da Misericórdia, parece não haver um desenho de pormenor e também não exista a figura de um director artístico da obra. Por outro lado, ao longo das décadas de execução das obras, sucedem-se os dirigentes da Misericórdia de Évora.

Talvez que um dos factores que mais concorram para acentuar a ideia de conjunto é que tanto a talha quanto o azulejo comungam dos mesmo objectivos, na medida em que se assumem como “obras de arte totais” procurando reunir todos os discursos expressivos na sua própria plástica, incorporando o texto e o desenho de elementos de arquitectura. São também obras de um tempo ecléctico, com a combinação de soluções conservadoras e inovadoras, como a opção do mestre entalhador Francisco Silva em recuperar a solução maneirista da colocação da pintura com a representação de Nossa Senhora da Misericórdia no ático do frontispício da capela-mor, ou como preferiu António de Oliveira Bernardes, subdividindo a campanha azulejos por três pintores com estilos diferentes.