Conforme assinalado na sua biografia, foi adquirida com um conjunto de outras duas para a Casa da Relação da Arquidiocese de Évora, e o texto permite-nos reconstituir o cerimonial pomposo da sala do tribunal, marcado por um dossel sob o qual se sentava o arcebispo, rodeado pelas cadeiras forradas de couro dos quatro secretários. No lado oposto, um longo bufete, certamente de madeira exótica, estava guarnecido com gavetas de ambos os lados para se guardarem os documentos (ESPANCA, 1986-87: 137-8). O dossel, a mesa e as cadeiras estavam cobertas e decoradas com tecidos de damasco e seda roxos – cor associada à dignidade do arcebispo -, e as três escrivaninhas de prata, colocadas sobre o bufete, sublinhavam a solenidade do próprio acto da escrita, nas determinações emanadas da autoridade arquiepiscopal.

A escrivaninha do arcebispo é composta por uma bandeja circular, com os bordos ligeiramente elevados, onde se dispõem quatro peças iguais: dois tinteiros, o areeiro e o porta-penas. Esse último distingue-se apenas pela presença de quatro orifícios circulares para a introdução das penas, enquanto no arreeiro, a areia utilizada para absorver o excesso da tinta, é filtrada por uma tampa interna, perfurada.

Filiadas à tradição maneirista, as peças são desadornadas, mas apresentam um perfil complexo modelado pela multiplicação e alternância de linhas curvas salientes ou reentrantes. Em contraponto ao peso geométrico dos outros elementos, a campainha caracteriza-se pela sugestão fitomórfica da cúpula, dividida em secções como as pétalas de uma flor, que recebem, para acréscimo de leveza, uma decoração rendilhada de vazados.


Marca do ourives, do contraste de Lisboa e de ensaio.A marca do ourives

A acção episcopal de Frei Luís da Silva, uma das figuras proeminentes do reinado de D. Pedro II, que ocupou também as cátedras de Lamego e da Guarda, coincide em Évora com fim do século XVII, e por uma ligação próxima e continuada com os principais artistas de Lisboa, como é o caso do ourives identificado apenas pelas iniciais M.D.O., da sua marca registada, mas de quem se desconhece outros dados biográficos. A peça foi, depois de pronta, fiscalizada pelo ensaiador municipal, que avaliou a pureza da prata, e em sinal de aprovação, identificou-a com a marca da cidade de Lisboa.


Armas de D. Frei Luís da Silva Telles, arcebispo de Évora.O brasão do Arcebispo

Período marcado por intensas realizações mecenáticas, que só a morte logrou interromper, as obras do arcebispo em Évora estão identificadas copiosamente com o seu brasão de armas (retábulo de talha dourada da Virgem dos Anjos e relicário do Santo Lenho, na Sé de Évora; azulejos do Paço Arquiepiscopal, retábulo da capela-mor de Santo Antão, etc.). Como se procura justificar na sua biografia, não uma fórmula de ostentação pública mas, sim, a demonstração do destino das rendas da arquidiocese, utilizadas em benefício da dignidade episcopal e do engrandecimento da igreja, do qual Frei Luís se reclamava, apenas, um humilde servidor.

 

Celso Mangucci

BIBLIOGRAFIA

Inventário do Museu de Évora. Colecção de Ourivesaria. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1993

Espanca (1986-1987), Túlio, “Memória da Vida e Morte do 10.º Arcebispo de Évora, D. Frei Luís da Silva Teles” in A Cidade de Évora, n.ºs 69-70. Évora: Câmara Municipal de Évora, 1986-1987.