O tríptico de esmalte com cenas da Paixão de Cristo - uma das mais famosas aquisições de Frei Manuel do Cenáculo – esteve inicialmente exposto acompanhado por uma folha impressa em latim, com uma tão elaborada quanto lendária história da sua origem.


Segundo o escrito, o esmalte seria proveniente do saque de Constantinopla em 1203, e teria sido uma doação ao Templo de Santa Sofia do próprio Constantino Magno, o primeiro imperador romano a converter-se ao Cristianismo. Essa proveniência justificaria também o precioso trabalho de embutidos da tampa do estojo de madeira, com uma imbricada composição formada pela multiplicação da estrela de seis pontas, num trabalho com a tradição turco-muçulmana, mas provavelmente realizado nos séculos XVII-XVIII.


Cristo crucificado. Lâmina central do Tríptico da Paixão.Depois de trazida pelos cruzados franceses para o Ocidente, num acidentado percurso, a peça esteve em posse do rei de França, Francisco I, passando para o imperador Carlos V e posteriormente para a posse de Isabel de Áustria que o teria feito colocar no altar de uma capela do palácio em Mântua.


Provavelmente um oratório portátil, o tríptico é dividido em três partes, uma central e maior, e duas laterais que se podem dobrar sobre a primeira, facilitando o seu transporte. A lâmina central representa a crucificação de Cristo com o bom e o mal ladrão e, mais precisamente, como bem notou Gabriel Pereira (1948: II, 281), o momento no qual um soldado romano cego, guiado pela mão de um centurião, lanceia o peito de Jesus Cristo para confirmar a sua morte. Sublinhando o carácter piedoso do acto, Maria Madalena segura a maça com que o centurião romano, postado do lado oposto, montado num belo cavalo ajaezado, pretendia partir as pernas dos crucificados, antecipando brutalmente a morte. São Longuinho, segundo a tradição, seria curado milagrosamente da sua cegueira por uma gota de sangue de Jesus.


Cada uma das abas laterais se divide em dois quadros. A da esquerda apresenta dois momentos cronológicos anteriores à crucificação com a decisão do procurador Pôncio Pilatos em condenar Jesus (Lava mãos) e o Caminho ao Calvário, com Cristo carregando a Cruz. À direita, dois momentos posteriores à Ressurreição: à Descida ao Limbo e o Aparecimento de Cristo à Virgem.


A atribuição do tríptico do Museu de Évora a Nardon Pénicaud
, o primeiro de uma importante dinastia de artistas de Limoges, tem vindo a ganhar consistência, seja pelo carácter narrativo denso e pormenorizado da composição pictórica seja também pela particularidade técnica que consiste em aplicar uma primeira camada de prata sobre o cobre de maneira a intensificar o brilho dos esmaltes translúcidos. Na paleta do artista predominam o azul-escuro, o violeta e o verde e a representação da carne apresenta uma tonalidade violácea, fruto da incorporação do óxido de manganés para matizar o branco.


A qualidade estética da obra onde se cruzam as referências tardo-medievais da lenda Áurea com as referências renascentistas da antiguidade clássica, e a técnica do esmalte, um dos esplendores da arte Bizantina, foram a base para a reconstituição histórica da origem do tríptico, actualmente considerada artificiosa, mas perfeitamente coincidente com o espírito das pesquisas historiográficas e arqueológicas empreendidas por frei Manuel do Cenáculo.

Celso Mangucci

 

BIBLIOGRAFIA

Catálogo Illustrado da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola. 2 volumes. Lisboa: Imprensa Nacional, 1882

Pereira (1948), Gabriel, Estudos Eborenses, 3 volumes (2ª edição). Évora. Edições Nazareth, 1948.

 

LINKS

Obras de Nardon Penicaud e Jean Penicaud na The Frick Collection: http://collections.frick.org/CUS.18.zoomobject._938$44334*2118219