Possui duas portas, articuladas em três volantes que acompanham, ao fechar, a forma da caixa e que exibem, quando abertas, o entalhe representando os antepassados e progenitores da Virgem. O baixo-relevo que constitui o painel fundeiro do oratório define, ao centro, o resplendor em forma de amendola raiada, encimado por dois anjos prontos a coroar a Virgem. O revestimento policromo e dourado das superfícies acentua o esculpido das formas, os torneadas das colunas que se transformam em nagas aladas que em tudo se assemelha aos púlpitos e retábulos seiscentistas das igrejas de Goa.

 

A imagem de vulto é de madeira policroma, com partes de marfim, nomeadamente as zonas destinadas a imitar a tez da pele, como os rostos da Virgem e dos querubins, as mãos, o Menino e outrora provavelmente as extremidades dos sapatos e as pontas do crescente lunar. Estilisticamente enquadra-se na classificação corrente indo-portuguesa da imaginária pertencente ao século XVII, de características aproximadas às suas congéneres europeias que lhes serviam de modelo. São notáveis, contudo, os traços de uma reinterpretação por parte dos artífices goeses que transparece nas feições dos rostos, na decoração com perlados, no acentuado dos pregueados dos panejamentos e das madeixas de cabelo, mas sobretudo, na concretização dos embasamentos. Na peanha, na qual uma flor de lótus recebe no seu seio o globo, representam-se feras que emergem por entre as folhagens. São animais fantásticos de bocas arreganhadas que percorrem todo o imaginário brutesco da arte luso-indiana.

 

Também muito característico é o trabalho recortado e rendilhado em tambaca das dobradiças que articulam os volantes pelo lado exterior, muito frequentes no mobiliário indo-português, em charneiras de contadores e também como decoração e revestimento de crucifixos e oratórios. As portas fecham ao centro, onde ainda existem vestígios das ferragens que as prendiam, mostrando uma pintura não coeva, em tons de vermelho, talvez a única aproximação que resta ao que poderia ter sido uma superfície lacada original. A decorar lateralmente a caixa em que se transforma o oratório fechado, existe uma espécie de aletas de madeira entalhada, com enrolamentos vegetalistas de onde sobressaem cabeças ervadas.

 

Conceição Ribeiro