Basta comparar a Anunciação do Museu de Évora com os azulejos hispano-árabes produzidos na mesma época em Sevilha, para se ter uma ideia do impacto que representou a chegada do italiano Francisco Niculoso, quando, nos últimos anos do século XV, estabeleceu oficina nessa cidade. No seu atelier, pela primeira vez na Península Ibérica, realizaram-se peças segundo a técnica de majólica, proporcionando a pintura figurativa sobre cerâmica, no caso, realçada pelo controle da fusão de uma gama variada de tons, em declinações do verde ao negro, do amarelo ao laranja, do azul ao violeta.

A minuciosa qualidade do seu trabalho extravasou fronteiras e suscitou também encomendas portuguesas e, além da peça do Museu de Évora, conhecemos uma Visitação, assinada pelo mestre, que foi encontrada nos finais do século XIX, nas paredes de um edifício em Lisboa, e encontra-se actualmente no Rijksmuseum de Amesterdão.

A Anunciação do Museu de Évora foi executada para uma pequena capela do claustro do Mosteiro de São Bento de Cástris, em Évora, de onde foi retirada para figurar na Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola, realizada em Londres, em 1881. Representa ao centro, sob um dossel com panos bordados, a Virgem folheando um livro sobre a mesa, enquanto o anjo Gabriel, com um bastão, aponta para o Espírito Santo que aparece em forma de pomba, entre raios de luz. Ao fundo, através das colunas da loggia, o observador contempla uma cidade entre colinas. Numa afirmação de modernidade, a cena é enquadrada por um conjunto arquitectónico profusamente decorado com grotescos renascentistas.

Embora haja evidentes pontos de conexão entre a Anunciação do Museu de Évora e a restante obra de Francisco Niculoso, a atribuição da peça ao mestre nunca foi consensual, devendo provavelmente tratar-se de um trabalho de continuidade da oficina, dirigida pelo filho Juan Bautista.

Celso Mangucci

BIBLIOGRAFIA
Loureiro (1992), Fátima, “Francisco Niculoso, dito Pisano” in No Tempo das Feitorias. A Arte Portuguesa na Época dos Descobrimentos. Lisboa: Instituto Português de Museus, Museu Nacional de Arte Antiga, 1992.


Pleguezuelo Hernández (1989), Alfonso, Azulejo Sevillano, Catalogo del Museu de Artes y Costumbres Populares de Sevilla. Sevilla: Padilla Libros, 1989.


Simões (1990), José Miguel dos Santos, A Azulejaria em Portugal nos séculos XV e XVI. 2ª edição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1990 (primeira edição em 1969).