Por volta de 1720, Vieira de Matos, chamado “o Lusitano” desde a sua viagem a Itália, em 1712-19, casou em segredo com uma jovem pertencente à nobreza, D. Inês Helena de Lima e Melo, que fora sequestrada num convento pela família. Este casamento provocou um enorme escândalo, cujas repercussões viriam a afectar profundamente Vieira durante toda a sua vida. A tempestade causada pelo seu acto, obrigaram-no a fugir do país, e partiu para Roma, onde voltou a trabalhar como pintor.

A composição no presente desenho é uma alegoria autobiográfica realizada durante o exílio em Roma, entre 1722 e 1729, na qual é apresentada a difícil situação pessoal de Vieira e da sua “mulher”, D. Inês. Destinava-se a preparar uma pintura com o mesmo projecto, cujo objectivo era solicitar a intercessão do seu anterior patrono, D. João V. Vieira tinha esperança de que esta mensagem pusesse fim ao seu período de desfavor oficial e lhe permitisse recuperar o cargo de pintor da corte.


Na composição, o artista estabelece uma comparação entre os seus próprios talentos como pintor e a faculdade que Orfeu tinha de encantar através da música e da poesia. Orfeu, um poeta trácio famoso pela beleza dos sons da sua lira, casou-se com Eurídice, ninfa dos bosques. Por morte de Eurídice, em consequência da mordedura de uma serpente, Orfeu desceu aos infernos, numa vã tentativa de a trazer de volta. Por solicitação de Vieira, a sua pintura da composição de Orfeu foi apresentada ao Rei por Alexandre de Gusmão. O paradeiro deste quadro é desconhecido, mas é provável que tenha sido destruído, juntamente com o Palácio Real e o seu recheio, no terramoto de 1755.


No desenho, o jovem e belo Orfeu, ajoelhado à esquerda e com a coroa de louros, é o próprio Vieira (o único auto-retrato do jovem pintor que chegou até nós). Orfeu ajoelha-se diante de Plutão, o monarca de aspecto severo que governa os infernos, e que representa D. João V. D. Inês é Eurídice, a jovem semi-nua colocada junto à coluna da direita numa atitude púdica, que se aproxima do músico vinda do limiar dos infernos, ameaçada por duas harpias irritadas, que esvoaçam ao alto. As três Parcas aparecem no canto inferior direito, e a serpente venenosa que matou Eurídice pode ser vista em baixo, à esquerda. Em fundo, detectam-se alguns dos habitantes permanentes dos infernos na mitologia grega: o Rei Midas, reclinado no chão, à esquerda; Íxion, atado à roda de fogo, com a “falsa” Juno, nua, ao seu lado, numa atitude trocista; Sísifo, por uma vez sentado sobre a pedra em vez de a empurrar interminavelmente monte acima; e Caronte, conduzindo a barca pelo Rio Estige. Na margem do rio, deitado de costas diante de Caronte, está o gigante Tício, cujo figado é devorado por uma águia.

A densa e complexa alegoria foi solenemente posta em cena num espaço aberto e racionalmente definido, a sala do trono do Hades, semelhante a um palácio clássico. Vieira aplicou escrupulosamente a este projecto todos os princípios da composição de figuras do barroco italiano tardio e detectam-se numerosas citações de obras de diversos mestres, como Carlo Maratti (1625-1713).

 

BIBLIOGRAFIA

Catálogo da Exposição Vieira Lusitano, 1699-1783. O desenho. Lisboa: Instituto Português de Museus, Museu de Arte Antiga, 2000

Turner(2000), Nicholas, Desenhos de mestres europeus em colecções portuguesas. Lisboa: Centro Cultural de Belém, 2000.

Catálogo da Exposição de Desenhos de Vieira Lusitano existentes no Museu de Évora. Évora, Museu de Évora, 1969