O reverso da mesma lápide recebeu, cerca de dois séculos depois, outra inscrição com a escrita em posição inversa à primeira. Tal como a inscrição da face A, deveria possuir pelo menos nove linhas. No estado actual, apresenta apenas as últimas seis.

O campo epigráfico, rebaixado, é delimitado, por dois lados, pelo que resta de uma moldura lisa estreita e que, tal como o relevo das letras, quase desapareceu em virtude de um desgaste progressivo e muito profundo.

Tradução:

(…) (em) quinhentos e (….) Ordenou a sua construção o imãm al-Mansur bi—Llah Abu Muhâmmad Sidray Ibn Wai’r al-Qaysi. E terminou sob a direcção do Vizir (…) Abu Abd Alláh Muhâmmad

 

Trata-se, como é evidente, de uma inscrição comemorativa de fundação. Não sabemos a que construção se refere, mas sabemos sim que foi mandada fazer por Abu Muhâmmad Sidray Ibn Wazir al-Qaysi, figura conhecida no Andaluz nos meados do século VI H (XII d.C.). Os títulos que lhe são atribuídos al-Imám, al-Mansur bi-Llah, já conhecidos de inscrições numismáticas, levam-nos a concluir que, ao tempo, seria rei de Taifa.


Da data apenas resta a indicação da centúria de quinhentos (séc. XII), pois, devido à estrutura da datação árabe em que as centenas são colocadas após as unidades e as dezenas, estas estariam nas linhas anteriores desaparecidas. Todavia, uma análise do que se conhece da vida de Ibn Wazir, permitirá uma hipótese de datação mais precisa ao tentar identificar a altura em que, como senhor independente, se teria proclamado Rei.
São poucas, e por vezes um tanto confusas, as informações que possuímos do acidentado período que se situa entre o final da dominação Almorávida e o início da Almóada, vulgarmente chamado de Segundas Taifas.


Verificamos assim, que desde 539, ano da revolta em Évora contra os almorávidas, até 552, Ibn Wazir está em dependência ou de Ibn Qasi ou de Ibn Hamdín ou dos almóadas, à excepção de um curto período que vai dos finais de 542 (meados de 1148) — expulsão dos almóadas de Sevilha — ao início de 546 (2.° quartel de 1151) data da homenagem a Abd al-Mumiin, em Salé. É neste período que parece lógica a sua proclamação como Rei e será, portanto, dessa data a presente inscrição.


Quanto à construção em causa, nada se sabe. Segundo a tradição, onde hoje está a Catedral de Évora, deve ter existido a mesquita principal e, nas proximidades, devia situar-se a alcáçova. O facto da construção ter merecido ser assinalada com uma inscrição, faz-nos supor tratar-se de uma obra de certa envergadura e relevância.
Em conclusão, é evidente a importância desta inscrição, não só por ser testemunho de uma época conturbada e ainda pouco conhecida, mas principalmente por reconfirmar em Évora a soberania de Abu Muhâmmad Sidray Ibn Wazir, Rei de Taifa.


Artur Goulart de Melo Borges

 

BIBLIOGRAFIA

Borges, Artur Goulart de Melo, “Duas inscrições árabes inéditas no Museu de Évora” in A Cidade de Évora, n.ºs 67-68, 1984-1985.