Em Julho de 1968, quando se procedia às obras de desaterro da cave do Museu de Évora, antigo Paço Arquiepiscopal, foi encontrado um fragmento de lápide com inscrições árabes nas duas faces. Tal fragmento servia de cabeceira, como material reaproveitado, a uma sepultura, que se situava em nível inferior ao do antigo pavimento de utilização, muito provavelmente o da reconstrução seiscentista.

O fragmento de lápide é constituído por uma peça única de mármore com 40 cm de altura, por 63 de largura e 6 de espessura. Calculando o seu tamanho original a partir do texto e tendo em conta as formas mais comuns na Espanha Árabe, é de admitir que a lápide deveria ser quadrangular com os quatro lados iguais ou com os dois verticais mais compridos.

A quase totalidade da lápide é ocupada pelo campo epigráfico, com as letras em relevo, delimitado por uma moldura lisa. Tem seis linhas em cúfico arcaico e, originariamente, tendo em conta as prováveis dimensões já referidas, deveria possuir pelo menos nove linhas.

É esta a tradução do texto árabe:

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. (Dou testemunho que) não há outro deus senão Deus, Ele só, - que não tem associado e que Muhammad é o seu servo eleito e o seu profeta, merecedor de toda a sua complacência – que Deus nos guie através dele pelo bom caminho. Esta cidade foi reconstruída…

Estamos perante urna peça importante da epigrafia hispano-árabe, não só por ser das raras inscrições em cúfico arcaico encontradas em Portugal, mas sobretudo pela notícia da reconstrução da cidade. Infelizmente, por falta das linhas finais, não dá outras informações quanto a datas ou personalidades ligadas à reconstrução. Apesar disso, o sítio em que foi encontrada, a própria lápide em si (ver face B) e as notícias que possuímos de cronistas árabes e cristãos, permitem concluir que se refere à reconstrução de Évora no princípio do século X, após o saque da cidade por Ordonho II, pouco tempo antes deste ocupar o trono da Galiza.

Na verdade, foi no início deste século, precisamente a 13 de Muhárram de 301 H (18 de Agosto de 913 d.C) que, segundo os cronistas, Ordonho, ao tempo rei vassalo da Galiza, cercou Évora com um grande exército. Devido ao mau estado das muralhas, a cidade foi rapidamente tomada. O governador Marwán Ibn Abd al-Málik ibn Ahmad foi morto na mesquita, enquanto a cidade era teatro de grande chacina. No dia seguinte, Ordonho partiu vitorioso levando em cativeiro quatro mil mulheres e crianças.

Um texto árabe, recentemente publicado - o volume V do Al-Múqtabas do célebre cronista cordovês Ibn Hayyán -, veio trazer elementos inéditos e importantes sobre a sorte de Évora após a vitória de Ordonho. Ao descrever os acontecimentos do ano 301 H, acrescenta, então, que tendo Évora ficado deserta, o senhor de Badajoz, Abd Alláh Ibn Muhâmmad al-Jilliqi, temendo que alguns dos berberes das imediações lá se metessem e lhe viessem a causar preocupações, destruiu as suas torres e as muralhas. Ficou assim Évora abandonada até que o mesmo senhor a reconstruiu no ano seguinte, 302 H. (27.7.914 a 16.7.915 d.C.) para o seu aliado Mas’úd Ibn Sa’dún as-Shurunbaqui.

Em conclusão, as características da lápide, o tipo de escrita e, sobretudo, a referência à reconstrução da cidade, permitem ligar esta inscrição à restauração de Évora e datá-la do ano de 302 H. (914-915 d.C.), corroborando assim as informações de Ibn Hayyán, factos que a tornam notável.


Artur Goulart de Melo Borges

BIBLIOGRAFIA

BORGES, Artur Goulart de Melo, “Duas inscrições árabes inéditas no Museu de Évora” in A Cidade de Évora, n.ºs 67-68, 1984-1985.