Tudo indica que esta obra faça parte de um conjunto de doações recebidas pelo convento de São Domingos, uma das casas religiosas mais importantes de Évora, cuja igreja sofreu grandes obras de restauração nos inícios de quinhentos, suportadas pelos Condes do Prado. Seguramente foi realizada para um de seus retábulos, desde sempre conhecidos pelo primor e riqueza das obras de escultura e pintura que possuíam. O mosteiro foi demolido em 1882, por iniciativa do município, com o pretexto de realizar trabalhos de embelezamento da fisionomia urbana da cidade.

A iconografia do provável grupo escultórico, hoje incompleto, tem sido objecto de apreciações. Túlio Espanca (1966) sugeriu que se poderia tratar da Aparição de Cristo à Virgem, opinião apoiada por Pedro Dias (1992), que precisou que poderia representar o episódio da aparição de Cristo ressuscitado a Santa Maria Madalena, conhecido pela frase latina Noli me tangere (não me detenhas).

Este passo aparece mencionado nos Evangelhos de São Marcos e São João. No segundo caso, apresenta pormenores concretos que permitem situar o momento em que Maria Madalena, ao reconhecer o Salvador, se terá lançado aos seus pés: Jesus disse-lhe: ‘Não Me retenhas, porque ainda não subi para Meu Pai; mas vai ter com os Meus irmãos e diz-lhes que vou subir para Meu e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus’. Maria Madalena foi dar a nova aos discípulos: ‘Vi o Senhor!’, contando o que Ele lhe dissera.”

O facto de ser difícil a figuração plástica da antinomia entre o reconhecimento e a brevidade do contacto foi solucionada mediante o sublinhar de dois aspectos fundamentais do episódio: por um lado, os laços de proximidade afectiva e, por outro, o gesto de distanciamento de Jesus, em geral completado com a indicação do céu (directamente por intermédio da mão apontando ao alto ou, indirectamente, através da presença do lábaro da Ressurreição). O Cristo de Évora apresenta precisamente esta última dualidade — o Salvador faz um sinal de detenção com a mão direita e faz menção de segurar na outra um estandarte, entretanto desaparecido.

Posto que a obra que nos ocupa esteja mutilada, tudo aponta para que a mão, colocada junto ao peito, evidenciasse os dedos todos abertos e juntos, em posição de defesa. A imagem de Santa Maria Madalena que lhe servia de contraponto perdeu-se em época indeterminada. Segundo as regras de representação em voga nos inícios de Quinhentos, a penitente era geralmente figurada de joelhos ou com uma ligeira inclinação na direcção de Jesus, solução que se ajusta sem esforço à postura vertical da estátua subsistente.

Sob o ponto de vista estilístico, a escultura em apreço situa-se, tal como tem sido notado, numa época de charneira. Efectivamente, ela estabelece uma harmoniosa mas clara transição entre a sintaxe do Gótico Tardio, de grande pujança na cidade de Évora, e os cânones eruditos do Renascimento, então em plena afirmação no território português, reflectindo um tratamento plástico dos panejamentos e uma anatomia ainda ligados às correntes tradicionais, a par de uma elegância e serenidade na atitude verdadeiramente já próprias do naturalismo moderno. É a progressiva adopção do mármore na escultura que conferirá uma efectiva identidade a plástica gótica da oficina eborense..

(FABP/JAF)

BIBLIOGRAFIA

Espanca, 1966

Pereira (1948), Gabriel, Estudos Eborenses. Évora: Editora Nazareth, 1948.

Catálogo da Exposição Ai Confini della Terra, Scultura e arte in Portogallo 1300-1500. Milão: Electa, Milano Elemond Editori Associati, 2000.

Catálogo da exposição Feitorias

Catálogo da exposição A Arte en ia Época dei Tratado de Tordesiiias, pp. 167-169.