A Virgem orante do Museu de Évora é uma das raras imagens do século XV concebida para ser vista pelo menos de três das suas perspectivas, abarcando-se o vulto pleno a medida em que o espectador gira à sua volta. Na realidade, estamos perante a escultura de uma figura feminina destacada de um grupo escultórico que terá incluído um desaparecido Cristo – na hipótese de se tratar do aparecimento de Cristo à Virgem – ou de um anjo, no caso de um amputada cena da Anunciação. Trata-se, em todo o caso, de uma representação da Virgem. Ajoelhada sobre uma plataforma rectangular, de mãos postas em atitude de oração e olhar dirigido para o alto, a figura transmite uma contenção serena, que pensamos ser mais adequada à cena do milagre do aparecimento de Cristo, já depois de crucificado, à Virgem. Em contrapartida à interiorização das emoções, o tratamento das pregas do manto desta figura dá-lhe o dinamismo necessário para a transpor para a dimensão emotiva da mãe que reencontra o Filho.

Na sua plasticidade ressalta não só esta curiosa composição do volume corpóreo da figura, mas sobretudo o envolvimento do bloco de mármore branco pelo pregueado do pano leve que cai em cascata a partir do cotovelo. O próprio cabelo sulcado sobre a cabeça ganha, já nas costas, os contornos do manto animado. Em contraste com a aspereza pouco natural da anatomia das mãos, da rigidez do colo e do pescoço, o pano exibe valores tácteis e a percepção do escultor da possibilidade de expressão simultaneamente grácil e requintada dos tecidos.

(MJV)

BIBLIOGRAFIA

Catálogo da Exposição Ai Confini della Terra, Scultura e arte in Portogallo, 1300-1500. Milão, Electa, Milano Elemonde Editori Associati, 2000.