Essa escultura pertenceu à colecção do Bispo Frei Manuel do Cenáculo e foi encontrada, em Beja, no Vale de Aguieiro, nas propriedades do Capitão Manuel Veiga, em 1783.
Apesar de mutilada, podemos identificar que representa um torso feminino sentado num trono. Está acéfala e faltam ambos os braços. Além disso, a falta de atributos torna difícil a identificação da divindade ou personagem representada porque na iconografia da antiguidade clássica há um conjunto de divindades que surgem representadas sentadas, como por exemplo Juno/Hera, Deméter/Ceres, Tyche/Fortuna, Cíbele, as Musas, a personificação de Roma e as imperatrizes.

Foi comparada com a Aura, do relevo Tellus, na Ara Pacis, sentada com pregas do manto sobrepostas de forma semelhante, e que é uma alegoria à abundância e à prosperidade.

É uma escultura que sugere movimento, dada a excelente execução das pregas da stolla e da palla, e com um bom trabalho anatómico. Corresponde a um modelo helenístico executado por um escultor com grande perícia técnica, podendo ter sido importada de Roma.

No entanto, as informações sobre o seu contexto de proveniência são muito escassos, limitando-se à nota de Frei Manuel do Cenáculo, que a menciona como proveniente de Vale de Aguieira. A presença desta escultura monumental naquele sítio levanta a dúvida se seria uma escultura de carácter decorativo ou de um templo campestre dedicado à abundância. O seu paralelo mais próximo é a Ceres do teatro Augusta Emérita.

 

Luís Jorge Gonçalves e Trinidad Nogales Basarrate

 

BIBLIOGRAFIA

Catálogo da Exposição Imagens e Mensagens. Escultura Romana do Museu de Évora. Lisboa: Instituto Português de Museus e Museu de Évora, 2005