Registam-se inúmeros exemplares das designadas credências nas nossas igrejas, algumas sem acabamento numa das faces longitudinais em virtude do adossamento a paredes, forros de azulejos ou apainelados de talha, outras, “perfeitas” como esta, são decoradas nas quatro faces. Porque o serviço litúrgico o impunha, junto do altar deveria haver sempre uma credência, peça a que é dada importância acentuada, a motivar uma produção considerável destes espécimes ainda que dentro do figurino civil.
Derivadas das poderosas bases destinadas a suportar contadores lacados, típicos da época da restauração, sobretudo no reinado de William and Mary (1688), que se notabilizaram no desenho das pernas com cariátides, rematadas a formar pé com garra de leão e bola, em correspondência a um desejo de aparato aúlico e magnificência, até pela sua sintaxe compositiva severa, a marcar neste registo a produção artística e a concepção dos interiores britânicos.

 

A credencia é um móvel com repercussões em toda a Europa e na área italiana os principais arquitectos barrocos italianos, Bernini, Borromini e os próprios Juvara e Vanvitelli, que trabalharam para a corte portuguesa, desenharam móveis deste tipo. Sabemos, por outro lado, que Antonio M. Racazzi, sob encomenda do embaixador Pereira de Sampaio, executou mobiliário para Portugal além do que de Inglaterra e Holanda continuámos a receber. Feixe de influências que explicam a produção híbrida destes exemplares.


Na peça do Museu de Évora, a nova linguagem do roccaile injecta uma organização simétrica do desenho, patente na esplêndida crète de coq do saial, que se prolonga de forma circular e termina na contra-voluta inferior, acompanhando de um e outro lado pelo transfurado do motivo da casca de amendoim – é a mais virtuosa composição dinâmica do mobiliário nacional.
(JMT)

BIBLIOGRAFIA
Espanca, 1966;
Catálogo da Exposição Triunfo do Barroco. Lisboa: Fundação das Descobertas, 1993