No Museu de Évora se conservam dois belos exemplares de arca-cofre, tendo sido divulgados por Túlio Espanca (ME 899 e ME 601).


Arcas forradas, ou cintadas com ferros, cofres-fortes de então, mais tarde apelidadas de burras, com múltiplas fechaduras ou complicados sistemas de segredo, perduravam em Quinhentos entre nós, pois necessário era ter a bom recato e em segurança, contra o roubo e o fogo, não só metais preciosos e valores amoedados, jóias e pratas, como também os documentos oficiais e os raros iluminados e cimélios de palácios e paços, das tesourarias e congregações religiosas. No testamento do rei D. Sebastião, datado de 1578, entre as suas últimas vontades existe uma, relativa a dotes de casamento de órfãos, em que o monarca determina: “…que o dinheiro dos órfãos que mandei vir das arcas onde estava para a Casa de Contratação da Cidade de Lisboa, se torne às arcas onde foi tirado, e se pague delas aos órfãos que se casarem ou emanciparem…”


Da época do cardeal-infante D. Henrique, inquisidor-mor do Reino a partir de 1547, à peça do Museu de Évora, chamam-lhe “Cofre da Inquisição Geral”. É, de facto, um cofre, pela forma facetada e elevada do tampo, de quatro vertentes. A arca de madeira é completamente forrada por pranchetas de ferro justapostas, fixas com fortes cravos de cabeça piramidal. As pilastras dos cantos descem — assim como os reforços existentes a meio das faces — para formar os pés. Possui três pingentes frontais, asas nas ilhargas e quatro ferrolhos distribuídos irregularmente, dois com fechaduras de caixão e os outros dois com espelhos recortados em forma de escudetes com coroas, seguros por grampos. Estes últimos seriam os originais e, os outros dois, um acrescento posterior.
(BF)

BIBLIOGRAFIA
ESPANCA (1964), Túlio. “A Inquisição em Évora” in A Cidade de Évora, n.º 47. Évora: Câmara Municipal de Évora, 1964.


FERRÃO (1990), Bernardo, Mobiliário Português. Dos Primórdios ao Maneirismo. A Centúria de Quinhentos. Porto: Lello & Irmão, Editores, 1990.


Catálogo da Exposição Os Judeus Portugueses entre os Descobrimentos e a Diáspora. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994