Em finais do século XIX, segundo o testemunho do historiador Gabriel Pereira, expunha-se na Biblioteca Pública de Évora, um raro chifre de “unicórnio” (assim, entre aspas) com o assinalável comprimento de 226 cm, peça que estava associada, numa mesma vitrina, a armas e insígnias, estoques pré-históricos e uma agulha de espadarte. Com grande probabilidade, teria pertencido ao arcebispo frei Manuel do Cenáculo, integrando as colecções de naturália, onde se incluíam os exemplares das Ciências Naturais, representativos dos reinos animal, vegetal e mineral.

Segundo os tratados da antiguidade clássica, o unicórnio era um raro animal semelhante a um cavalo pequeno, com um só chifre, nativo dos países do Oriente, referência que encontrou particular eco na literatura e artes plásticas nos finais da Idade Média e Renascimento. Desde o século XVII, com o incremento do comércio da presa defensiva do narval – um mamífero da ordem dos cetáceos, cujos machos adultos têm o dente incisivo esquerdo rectilíneo e contorcido em hélice -, que o mito a volta do animal lendário se esbatia, apenas sustentado pelas referências eruditas dos tratados de medicina, onde era preconizado para um largo número de patologias, e principalmente considerado um poderoso antídoto em caso de envenenamento.

Desfeito o mito, a “presa do unicórnio” mantinha, na época de Cenáculo, o prestígio como peça rara de colecção, expostas nas “câmaras de maravilhas” das principais casas aristocráticas da Europa.

Celso Mangucci

BIBLIOGRAFIA

Catálogo da Exposição La paz y la guerra en la época del tratado de Tordesilhas. Madrid: Sociedad V Centenário del Tratado de Tordesillas, 1994

PEREIRA (1947), Gabriel. Estudos Eborenses, 2ª ed. Évora. Edições Nazareth, 1947.