Este notável cálice evidencia claramente a mudança do gosto verificada com a introdução dos cânones clássicos, agora numa fase de equilíbrio entre a estrutura e o ornamento. O exuberante recorte das bases manuelinas foi substituído por uma base circular, moldurada com um friso relevado. A haste apresenta ornatos de mascarões, alternando com elegantes folhas de acanto enroladas em voluta, e o nó tem a forma de urna, coroada por quatro aletas em forma de delfins. Remata o conjunto uma falsa copa decorada com gomos relevados alternando com motivos geométricos incisos. A copa, lisa, é delimitada por duplo filete onde corre a inscrição. Também neste caso, a profusão ornamental das falsas copas tardo-góticas deu lugar a uma sóbria contenção decorativa mais condizente com os preceitos clássicos. Contudo, a copa apresenta ainda como curiosa reminiscência do gosto anterior uma legenda em caracteres góticos, resultante da encomenda e referência provável ao nome do doador. É sem dúvida obra de um grande ourives conhecedor do que de melhor se produzia ao gosto europeu da época, designadamente flamengo, o que se entrevê em diversos pormenores ornamentais, nomeadamente os mascarões e as aletas divulgados em toda a Europa através da circulação crescente de gravuras de ornato. Torna-se ainda importante assinalar que tal obra pertenceu ao conventinho do Bom Jesus de Valverde, fundado pelo cardeal D. Henrique em 1544, desvelado protector dos Capuchinhos da Mitra.

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BIBLIOGRAFIA
Catálogo da Exposição Do Mundo Antigo aos Novos Mundos. Humanismo, Classicismo e Notícias dos Descobrimentos em Évora (1516-1624). Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e Câmara Municipal de Évora, 1998.


Inventário do Museu de Évora. Colecção de Ourivesaria. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1993
ESPANCA (1966), Túlio, Inventário Artístico de Portugal, Concelho de Évora. 2 vols. Lisboa: Academia Nacional de Belas-Artes, 1966.