Situada fora dos muros de Évora, no lugar onde existiu uma albergaria para o tratamento de pestíferos, a ermida mudéjar, construída sob os auspícios de D. João II, foi consagrada a São Brás. O santo curador, em especial das doenças da garganta, popular no Ocidente durante a Baixa Idade Média, graças justamente a dispersão de suas relíquias, recebeu intenso culto local, o que levou à formação de um importante conjunto de alfaias litúrgicas, fruto, sobretudo, do patrocínio dos mais altos dignitários da cidade. Entre os objectos de ourivesaria que faziam parte desse espólio, transferidos, em 1917, para o Museu de Évora, encontra-se o relicário de São Brás. Realizado em prata, possui a forma de um antebraço e, numa provável referência sobre a origem da relíquia, o dorso da mão apresenta, dentro de um alvéolo envidraçado, o fragmento de um osso. O naturalismo da peça é acentuado pelas finas incisões no tratamento da pele e das unhas, e pela imitação da textura e dobras do tecido da manga, rematada por punho de galão, em prata dourada. Além da referência antropomórfica, o relicário, num artifício Barroco, reconstitui o próprio acto de intercessão de São Brás junto aos fiéis, representando a mão com os dois dedos estendidos, em gesto de benção.


Na base, um correcto trabalho em baixo relevo apresenta a figura de São Brás, como bispo, abençoando com a mão direita, envergando as vestes episcopais, mitra e báculo, e não é de excluir que a peça tenha sofrido algumas intervenções e adaptações, como parece indicar a irregularidade do douramento.
(CM)

BIBLIOGRAFIA
Inventário do Museu de Évora. Colecção de Ourivesaria. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1993

ESPANCA (1966), Túlio, Inventário Artístico de Portugal, Concelho de Évora. 2 vols. Lisboa: Academia Nacional de Belas-Artes, 1966.