Por volta de 1500, durante o bispado de D. Afonso de Portugal (1485-1522), a capela-mor da catedral de Évora recebeu o maior retábulo de pintura flamenga existente em Portugal. Não se conhece, no entanto, nenhum documento sobre a encomenda, identidade dos mestres e oficiais que trabalharam, nem tampouco sobre o lugar de realização ou sobre a disposição original dos quadros no conjunto do retábulo. De não menor importância é, também, o problema de averiguar se as pinturas se realizaram em Portugal ou na Flandres e se, na primeira hipótese, participaram pintores portugueses ou que trabalharam em Portugal. Trata-se, sem dúvida, de um aspecto decisivo para compreender o grau de influência desta grande obra nas mais importantes realizações da chamada pintura luso-flamenga: retábulo da catedral de Viseu, retábulos de São Francisco de Évora, painéis da oficina do Espinheiro, etc.

Graças ao relato de uma visita à catedral de Évora em 1537, se sabe que o Cardeal-Infante D. Afonso, bispo e visitante da diocese, o mandou limpar. Sofreria certas modificações em 1570 e, finalmente, em 1718, seria apeado e desmembrado quando se edificou a nova capela mor da catedral, projectada por João Ludovice. Mais tarde, os painéis passaram ao adjacente palácio arcebispal.

Vai ser no século XIX, que o arcebispo iluminista Frei Manuel do Cenáculo vai redescobrir os painéis, mandando-os restaurar em 1804 sob a direcção de Matias José de Castro, para os colocar na capela privada do palácio, com o painel da Nossa Senhora da Glória sobre o altar. O painel representando "O Menino entre os Doutores" teve um destino diferente, tendo sido colocado na sala da Biblioteca Pública de Évora, inaugurada em 1805 pelo mesmo arcebispo, onde permaneceu até finais do século XIX.

O retábulo era composto ao menos por treze painéis, alusivos a Vida da Virgem, todos de consideráveis dimensões. O maior, que representa a Virgem da Glória, seria a peça central, segundo o relato do Padre Manuel Fialho, de princípios do século XVIII. Quanto aos restantes, tendo em conta o programa iconográfico e os condicionamentos arquitectónicos da própria configuração da capela-mor gótica, deveriam dispor-se, de acordo com a mais recente e bem sustentada proposta de reconstituição avançada por Elisabeth Agius d’Yvoire, mais no sentido da altura que no de largura e em três sequências coerentes sobrepostas: as quatro primeiras cenas relativas a infância da Virgem (Encontro na Porta Dourada, Nascimento da Virgem, Apresentação da Virgem no Templo e Casamento da Virgem), as quatro seguintes ao ciclo da Natividade de Jesus (Anunciação, Nascimento, Circuncisão, Adoração dos Reis) e uma terceira série de quadros com episódios da infância de Cristo de carácter doloroso para a Virgem (Apresentação de Jesus no Templo, Fuga do Egipto, Jesus entre os Doutores), terminando com a Morte da Virgem.

Os treze painéis do retábulo não formam, por sua vez, um conjunto estilisticamente homogéneo, o que não é de estranhar num trabalho desta dimensão, resultado de uma encomenda geográfica e culturalmente periférica. Nestes se detectam claras manifestações de eclectismo, seja no que se refere a construção formal e nos modelos de inspiração, seja no plano da adopção de alguns elementos iconográficos. Dominam as reminiscências, ou inclusive «citações», de modelos das oficinas de Gerard David o de Hugo van der Goes, porém também se registam prováveis influencias menores de Dieric Bouts e de oficinas de Amberes. De toda forma, resulta evidente, em termos estilísticos, o parentesco ganto-brugense do retábulo.

Tentar identificar mais especificamente essa filiação exige a realização de exames de laboratório das pinturas e a comparação com os resultados já obtidos para as oficinas dessa área, sobretudo os últimos estudos de Maryan W. Ainsworth sobre a oficina e círculo de Gerard David, tarefa actualmente em curso no âmbito do Programa de Investigação, Conservação e Restauro do retábulo flamengo da Sé de Évora.

 

José Alberto Seabra Carvalho

 

YVOIRE (1992), Elisabeth Agius d', “Mestre do Retábulo da Sé de Évora" in Grão Vasco e a Pintura Europeia do Renascimento. Lisboa

 

ESPANCA (1970-1971), Túlio, "Visitação da Catedral de Évora em 1537" in A Cidade de Évora, nº 53-54. Évora: Câmara Municipal de Évora.

 

Catálogo da Exposição: El Arte en la época del tratado de Tordesilhas. Valladolid: Sociedad V Centenário del Tratado de Tordesilhas e Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses