O quadro de Álvaro Pires recentemente adquirido é a única peça do pintor eborense que desenvolveu a sua actividade na Itália, nos princípios do século XV, presente nas colecções nacionais. Os historiadores da Arte que estudaram esta pintura, como o Prof. Francesco Todinni, Andrea de Marchi ou Miklos Boskovits, são unânimes quer na sua atribuição ao pintor português, quer na datação da obra, à volta de 1410, o que a coloca no início da obra do pintor, tornando-a, provavelmente a primeira pintura conhecida até ao momento pintada por um mestre nacional. A primeira documentação de Álvaro Pires data do ano seguinte, em 1411, altura em que, na companhia de outros quatro mestres vindo de Florença, é contratado para decorar a fachada do palácio do mercador Francesco di Marco Datini, curiosamente um burguês com grandes relações com Portugal. A pintura do Museu de Évora caracterizaria assim o estilo inicial de Pires, marcado pela influência da arte de Taddeo Bartoli, mas também por certo à experiência artística de um Gherardo Starnina, aliás um mestre com passagem pela Península Ibérica. É marcadamente uma pintura do gótico internacional, cheia dos efeitos elegantes e ornamentais de uma arte preciosa onde o desenho elegante e uma paleta clara, mais aberta do que era vulgar nos pintores italianos coevos, se mistura com um desenho grácil, cheio de ondulações de tecidos e de uma simples mas tocante expressão dos rostos. Figuras belas que, como Maria Teresa Lazzarini escreveu, funcionavam como “metáforas do Paraíso”.


Como mais de uma vez foi sublinhado, tudo quanto sabemos da ligação de Álvaro Pires a Évora e a Portugal, deriva da sua própria assinatura nos painéis de Santa Croce in Fossabanda e Nicósia. A historiografia da arte italiana encontrou por vezes na pintura de Pires um certo carácter “exótico”, estranho à arte transalpina, nomeadamente na cor, mas o que é certo é que é difícil incorporar alguma coisa da sua aa prirte numa tradição portuguesa, pela simples razão de que essa tradição parece simplesmente não existir. Não se conhecem pinturas portuguesas retabulares anteriores à actividade de Álvaro Pires, e mesmo as referências documentais são bastante escassas. O desenvolvimento da pintura em Portugal parece ter acontecido sobretudo depois da subida ao trono da dinastia de Avis. É com D. João e a renovação cortesã que se seguiu à crise de 1383-1385 que encontramos uma presença constante de pintores na corte e um aumento significativo de notícias documentais sobre estes artistas.

Se não existe dúvida que Álvaro Pires é, pela sua obra, um pintor que se enquadra exclusivamente na arte de Pisa e Siena, a sua ida para Itália pode compreender-se dentro da abertura cultural e económica que se seguiu em Portugal aos acontecimentos de 1385 e que levariam, no início do século XV, aos primeiros passos da expansão portuguesa. Se Álvaro Pires levou de Portugal alguma aprendizagem artística, é mais provável que a tenha adquirido no meio de ourives, como Maria Teresa Lazzarini propôs, do que no incipiente meio pictórico nacional. Esta hipótese permitiria explicar aliás, a enorme mestria como utiliza o punção sobre a folha de ouro e a riqueza ornamental que caracteriza a sua produção artística.


BIBLIOGRAFIA

Catálogo da Exposição Álvaro Pires de Évora. A Virgem com o Menino. Évora: Instituto Português de Museus e Museu de Évora, 2002


Catálogo da Exposição Álvaro Pires de Évora, um pintor português na Itália do Quatrocento. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1994.