Apesar da sua proveniência e autoria estarem claras, trata-se de uma pintura que não vem explicitamente referida na documentação que, por três vezes, liga o pintor Diogo de Contreiras ao mosteiro cisterciense da cidade de Évora. Pelo tema e pela cronologia provável da pintura, talvez possa, no entanto, enquadrar-se na mesma empreitada do painel da Pregação de São João Baptista, exposto no Museu Nacional de Arte Antiga, pintado por Diogo de Contreiras entre 1552 e 1554. Acresce ainda o facto de ambos os quadros terem entrado juntos no Museu de Belas Artes e alguma relação entre as dimensões. De facto, a pintura do Nascimento de São João Baptista tem de largura 78 centímetros, ou seja, sensivelmente metade dos 159,2 centímetros do painel da Pregação de São João, o que possibilitaria, com algum desconto para a marcenaria, um conjunto que englobasse numa fiada o grande painel da Pregação e noutra o quadro do Nascimento e outra pintura de iguais dimensões, talvez representando a Anunciação do Anjo a Zacarias, já que o martírio do santo se encontra representado em cena secundária. A Anunciação a Zacarias, cronologicamente antecedente do nascimento de São João, situar-se-ia à esquerda, deixando o Nascimento à direita, o que não deixa de adequar-se a composição desta pintura. Estamos apenas, é claro, no domínio das hipóteses, mas o pagamento de trinta mil reais, elevado para um só painel, coaduna-se bem com um retábulo de pequenas dimensões, com três tábuas, e talvez remate e predela, como seria este que aqui conjecturalmente propomos.

A composição da pintura é bastante interessante, com a colocação do leito em diagonal e a figura escorçada de Santa Ana repousando sob largos panos vermelhos. A sublinhar esta linha fundamental da composição define-se, à esquerda, a massa triangular de Zacarias, numa torsão algo excessiva e de resultado duvidoso e, à direita, a linha que relaciona as duas mulheres que acalentam a velha mãe e a criança recém-nascida. Finalmente, a linha de abertura da janela deixa ver a cena secundária complementar numa solução que recorda as composições dos painéis da Vida de São Roque, do Museu de Arte Sacra de Lisboa. Existe nesta cena secundária o tradicional gosto de Contreiras pelos pequenos grupos, como o que coloca no terraço do edifício, assistindo à cena do martírio. Aspecto curioso é o pormenor de o portal não representar já as tradicionais decorações “ao romano”, características do primeiro Renascimento nacional e tão em voga nas representações pictóricas de meados do século, mas antes um portal de verga recta e frontão triangular sem decoração, já próxima da sisudez da arte contra-reformista que em breve se instalaria na arquitectura nacional.

O desenho das figuras é o tradicional de Contreiras, com as suas caras ovaladas das belas mulheres jovens e as faces angulosas da anciã. A jovem ama em primeiro plano, figura proeminente e grácil, de certa forma determinante na composição, até pela sua colocação “à boca de cena”, acentuando, por oposição, a profundidade do painel, tem alguma fortuna na arte portuguesa. E o próprio Contreiras a voltará a usar no tríptico do Nascimento e Infância da Virgem (proveniente também do Mosteiro de São Bento de Cástris, e actualmente no Museu de Arte Sacra da Sé de Évora), e num painel de temática muito diferente, a Aparição de Cristo à Virgem da Igreja de São Quintino de Sobral de Monte Agraço, em que a figura da Virgem, ajoelhada, com a mão direita estendida e a esquerda recolhida junto ao peito, não deixa de estar longe da posição da ama deste painel de Évora.

Verdadeiramente assinalável, nesse quadro, é o seu cromatismo, não tanto pela pureza das cores usuais em Diogo de Contreiras, o seu vermelho forte e vibrante, com que cria uma mancha densa no centro do painel; os brancos com que realça certos pontos importantes, como os rostos; os amarelos pálidos, como o que utiliza nas vestes da figura em primeiro plano ou no turbante de Zacarias; e os verdes e os azuis acinzentados do reposteiro enrolado no cimo da composição e nos panejamentos de Santa Isabel e de Zacarias. Estas cores são, como dissemos, usuais em Contreiras, mas são aqui usadas de forma inovadora. Criando manchas compactas e isoladas no fundo castanho do interior da câmara, os blocos das diferentes cores criam entre si relações que formam como que uma outra composição cromática que se sobrepõe às linhas de força do painel, dinamizando e de certa forma transferindo para a pintura um dinamismo inexistente na composição do desenho, o que revela uma capacidade pouco usual nos pintores nacionais de utilizar os jogos de colorido para além do decorativismo e da construção rítmica das pinturas, e transformar a cor na base da própria construção compositiva da pintura.