Na exposição de 1942, a pintura figurava como sendo da mão «do mesmo mestre» que o retrato da infanta D. Catarina de Bragança (ME 1443). À semelhança de factura e de fisionomia entre as duas obras não oferece dúvidas, o que justifica a atribuição do quadro de Évora ao pintor Avelar Rebelo. Trata-se de um tipo de retrato um pouco diferente, na medida em que aqui se representa uma acção, por simbólica que seja, entre duas figuras, a personagem principal e um acompanhante. Pode-se falar portanto de retrato historiado, o infante, trajando gibão de veludo preto com as mangas golpeadas e com um espadim à cintura, olha para o espectador mas prepara-se para entregar uma vareta a um pagem negro que entra pela esquerda. No lado oposto, vê-se uma mesa sobre a qual está o chapéu de plumas de D. Afonso. Tem-se interpretado este quadro como uma simples cena de género, na qual D. Afonso «brinca com o preto». Esta análise ignora o carácter eminentemente representacional, digamos assim, da pintura do século XVII, mormente quando se trata de uma figura no topo da hierarquia social, como aqui acontece. A vareta que o infante entrega ao menino negro (pagem ou escravo) tem a ponta envolta num tubo metálico com uma pequena esfera na extremidade. O objecto tem seguramente um significado específico que me escapa, mas pode ser que se refira a um exercício de carácter militar (equitação?) que o infante se prepara para realizar. Por outro lado, D. Afonso estende decididamente o braço direito para segurar na vara — um gesto que ele era na realidade incapaz de fazer. O infante foi atacado aos quatro anos de idade, em 1648, portanto, por uma «febre maligna» que o deixou hemiplégico do lado direito; «não via d’aquelle olho, não ouvia da mesma parte, e com muito desar movia a mão e o pé direito», conta uma “Vida d’el-rei D. Affonso VI escripta no ano de 1684”.

O quadro tinha pois por função de construir, em sentido literal, a imagem do príncipe. Ele devia demonstrar a perfeita integridade física do infante: com os olhos —com os dois olhos... — fixos no espectador, D. Afonso levanta o braço paralisado, preparando-se provavelmente, como se aventou, para levar a cabo algum exercício físico. A presença do pagem negro tem de ser interpretada nos mesmos termos. Nos retratos dos séculos XVI-XVII incluíam-se por vezes anões, pagens negros ou marcados por alguma anomalia física ou mental, sendo sua função essencial realçar precisamente a normalidade, a inteligência, a brancura da pele do retratado. No quadro de Évora, o pagem negro constitui um puro repoussoir para a figura de D. Afonso, acentuando a «normalidade» deste. Se, como penso, o quadro foi executado após a morte príncipe herdeiro, D. Teodósio, que ocorreu em Maio de 1653, então não se pode deixar de ver na vareta uma espécie de ceptro que remete para as funções que o futuro rei. D. Afonso mostra estar desde já perfeitamente apto a assumir. O rei O. Afonso VI (1643-1683) governou entre 1662 e 1667. Em 1666 contraiu matrimónio com D. Maria Francisca de Sabóia, matrimónio que veio a ser anulado no seguimento do golpe de estado que levou em 1667 o Príncipe D. Pedro ao poder e a casar com a cunhada. Levado prisioneiro para os Açores, o infeliz D. Afonso faleceu no Paço de Sintra.

Luís de Moura Sobral