Frequentemente exposta, esta obra, desde sempre atribuída a Josefa de Óbidos, está nesse momento bem estudada, tanto quanto aos objectos representados como quanto à óbvia significação, explícita pela inclusão da citação bíblica: “Occisus ab origine mundi” (Apocalipse, 13, 8), que acentua o carácter salvífico do símbolo cristológico. O cordeiro com a auréola por cima da cabeça, derivado do protótipo zurbaranesco, encontra-se no meio da composição, pousado sobre uma mesa ou altar, prestes a ser imolado. Entre ele e o observador interpõe-se no entanto, à maneira dos flamengos Daniël Seghers e Willeboirst Bosschaert, uma tarja com uma abertura ovalada ao centro a qual funciona como uma moldura. Por cima desta moldura dispuseram-se várias flores que entrelaçam simbolismos marianos e eucarísticos. Eucarístico é obviamente o significado genérico do quadro, já pelo motivo principal, já pelos cachos de uvas brancas e pretas dispostos aos lados e pelas duas espigas de trigo em frente da moldura

Especiosa é por outro lado esta criação de um nível ilusório de realidade através do tema do quadro dentro do quadro, que não sabemos muito bem como interpretar. A moldura, carregada de símbolos eucarísticos, funciona como uma janela através do qual, sobre o altar, se apercebe o Cordeiro de Deus em toda a sua materialidade simbólica, tão natural como as uvas no primeiro plano e tão simbólico como elas. Melhor não se podia evocar, em pintura, o Mistério da Transubstanciação – e o carácter da espiritualidade barroca. A pintura, uma das obras mais emblemáticas da autora, que demonstra os seus minuciosos dotes de observação naturalista, deve datar dos anos 1660-1670.

 

Luís de Moura Sobral

 

BIBLIOGRAFIA

Catálogo da Exposição Josefa de Óbidos e o tempo do Barroco. Lisboa: Instituto Português do Património Cultural, 1991


SOBRAL (2004), Luís de Moura, Catálogo da Exposição A Pintura Portuguesa no século XVII. Lisboa: Instituto Português de Museus, Museu Nacional de Arte Antiga, 2004


Catálogo da Exposição A Natureza Morta nas colecções Alentejanas. Évora: Instituto Português de Museus, Museu de Évora, 1999