Conhecida e admirada praticamente desde sempre, esta surpreendente pintura, cujo sentido não foi até agora devidamente esclarecido, fez parte da colecção do Arcebispo de Évora, Frei Manuel do Cenáculo, em cujo inventário figurava uma Ceia do Menino, São José e Nossa Senhora, passando a designar-se mais recentemente por Sagrada Família. A composição do Museu de Évora é um dos notturni mais radicais do seiscentos português e também um dos quadros que mais se aproxima de certas fórmulas do caravagismo internacional, que associam o tema de uma fonte visível de luz (vela, lanterna) ao de uma refeição ou reunião numa taberna. Violentamente iluminados ao centro do quadro, as três pessoas da Sagrada Família estão recolhidas à volta de uma mesa. A cena está envolta numa espessa escuridão que anula toda e qualquer referência espacial, apenas se distinguindo no canto superior direito as pontas de um reposteiro. À esquerda, o Menino levanta a mão para benzer a mesa e tudo fica suspenso nesse gesto e nesse instante, como que congelado pela brutal iluminação: o olhar enternecido da Virgem, as sombras projectadas sobre o branco da toalha, a atitude um pouco distante de S. José. A luz que irradia da vela, à altura dos olhos do Menino, é o elemento principal do quadro, tendo-se a artista visivelmente deleitado a modelar rostos e perfilar figuras, a calcular e a estender as sombras na toalha e nas roupagens dos actores. A importância do gesto do Menino e a expressão do rosto da Virgem, conferem ao quadro de Évora uma solenidade e, ao mesmo tempo, uma familiaridade, típicas da sensibilidade da autora e dos seus encomendadores.

Já na segunda metade do século, o motivo figura numa justamente célebre pintura de Nicolaes Maes, o Benedecite ou Velha senhora rezando (Amesterdão, Rijsksmmuseum), de cerca de 1656, tema relativamente comum na pintura holandesa do século XVII: uma senhora recolhe-se antes da refeição que se encontra disposta na mesa diante dela. Exacto contemporâneo de Maes mas de um espírito diametralmente oposto é o Bénédicité de Charles le Brun, do Louvre. Diurno e claro, com uma larga abertura no fundo, Le Brun mostra-nos, já não uma cena de género mas, como Josefa, a Sagrada Família à volta da mesa. Com São José de pé e de cajado na mão, a Virgem prestes a levantar-se e o Menino de doze anos de idade, a pintura representa a Sagrada Família preparando-se para a viagem de regresso à Terra Santa. Deve ter sido no entanto a uma gravura de Jacques Callot, de cerca de 1628, o Bénédicité, que a pintora portuguesa foi buscar a inspiração para a sua obra. A estampa de Callot é, como o quadro de Josefa, um notturno e também mostra o motivo da vela acesa deslocada para a esquerda e um saleiro ao lado do prato com peras.

A obra de Josefa tem sido interpretada em termos de Ceia Divina e foi igualmente relacionada com diversos passos das Escrituras, com os Evangelhos da Infância de Jesus e com as Meditações do Pseudo-Boaventura que falam das virtudes da pobreza e humildade da Sagrada Família. Ora se Callot e Le Brun representaram de facto uma refeição frugal ou humilde, a verdade é que não é exactamente isso o que se passa no quadro de Évora. Diante do menino vê-se a metade de um melão, no prato da Virgem três peixes que parecem secos, no de São José duas cenouras indubitavelmente cruas. Entre São José e sua esposa está um enorme pão, e por fim, ao centro em lugar de destaque, uma saleiro semelhante ao de Callot.

Na realidade, mais do que uma ceia trata-se de uma bênção de alimentos, de um ofertório ou de uma reunião de acção de graças pelas dádivas da natureza, criação divina, e é neste sentido que a pintura, deve ser, a meu ver, interpretada.

Recitado às laudes, antes portanto do nascer do sol, o Benedictus é um hino de acção de graças integrado no ofício divino quotidiano. Trata-se de uma adaptação litúrgica do cântico de Zacarias pelo nascimento de seu filho São João Baptista. Nas laudes de Domingo, recita-se ainda o cântico de louvor a Deus dos três hebreus metidos na fornalha. É essa noção de ofertório que justifica a inclusão do saleiro no quadro de Josefa. Um passo do Levítico afirma: “Tudo que ofertares em oblação será salgado; não deixarás que o sal da aliança de Deus falte à tua oblação; em todas as oferendas ofertarás sal” (Levítico, 2, 13).

É pois toda esta problemática que se encontra resumida no belo quadro de Évora. Não se trata, como em Le Brum e Callot, de um Benedicite por assim dizer privado ou familiar, mas sim da representação alegórica do Benedictus, com o filho de Deus a agradecer as dádivas da criação divina. O claro-escuro situa a acção num determinado momento, anunciando a vinda do Salvador, a Luz do dia. Tenebrismo carregado de sentidos em que, uma vez mais, importa atentar, para além dos sedutores efeitos formais.

Luís de Moura Sobral