Os dois fragmentos de ouro laminado por martelagem, com decoração geométrica espinhada, recolhidos na Anta Grande do Zambujeiro, em Évora, no decurso de escavações empreendidas por Henrique Leonor Pina, remontam ao período Calcolítico, e fazem parte do conjunto dos mais antigos documentos do trabalho desse metal no território nacional. O seu tipo de ornamentação é similar ao existente nas placas de xisto, báculos e peças de cerâmica coevas.

Das raras peças em ouro então produzidas que chegaram aos nossos dias ressalta o importante núcleo existente no Museu Nacional de Arqueologia, oriundo de estações arqueológicas do Sul e, sobretudo, do Centro do país, onde podemos destacar as folhas de ouro, lisas ou repuxadas (sepulcro 4 de Alcalar, Faro), o anel espiralado (gruta natural da Senhora da Luz, Rio Maior), um par de pendentes de folha ovalada (gruta artificial da Ermegeira, Torres Vedras), e as placas rectangulares encontradas nas grutas artificiais da Quinta do Anjo (Palmela).

Os fragmentos do Zambujeiro, porém, mostram uma qualidade decorativa que é rara nos demais exemplares conhecidos. Como acontece em relação a outros espécimes afins, são geralmente tidos como parcelas de diademas, mostrando de facto, em comum com aqueles, as características perfurações pelas quais passaria um fio de fibra entretecida que, atado, fixaria a jóia. Contudo, a diminuta espessura que apresentam — reduzida a uma folha de ouro muito fina — torna impraticável essa utilização, pressupondo a existência de um suporte de matéria orgânica, nomeadamente couro ou madeira, ao qual os fragmentos em apreço eram aplicados e que se podia usar suspenso ou preso ao vestuário. A presença das perfurações justifica-se, assim, não como o sistema de suspensão corrente na época, mas tão-só como meio de fixação das peças ao seu sustentáculo.

A folha de ouro de Alcalar constitui decerto o mais importante testemunho dos alvores da expressão artística em apreço. Juntamente com as restantes peças calcolíticas do Museu Nacional de Arqueologia e as aplicações de Évora forma um conjunto variado que evidencia o horizonte geográfico onde ela surgiu pela primeira vez. A factura destas obras poderá ter sido propiciada por contactos, pela via atlântica, com outras civilizações, nomeadamente do Mediterrâneo oriental, segundo o indicia uma conta de ouro fundido do povoado fortificado do Zambujal, próximo de Torres Vedras.

(RAS e JAF)

BIBLIOGRAFIA

Inventário do Museu de Évora. Colecção de Ourivesaria. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1993

Parreira, Rui e Pinto, Clara Vaz (1980), Catálogo da Exposição Tesouros da Arqueologia Portuguesa no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia. Lisboa: Instituto Português de Museus, 1980.