Segundo Túlio Espanca (1966, I: 137) o estandarte do Tribunal do Santo Ofício teria sido realizado expressamente para o Auto de Fé celebrado na praça grande de Évora, em 14 de Maio de 1623. Após a extinção do tribunal em 1820, e do Convento de S. Domingos de Évora, em 1834, o pendão da Inquisição, como é frequentemente denominado, esteve na posse de um particular, que o doou à Biblioteca Pública de Évora. Foi seleccionado, em 1881, para a Exposição Retrospectiva de Arte Portuguesa e Espanhola no Museu de Kensigton em Londres (PEREIRA, 1948, II: 275) e depois exposto no evento em Lisboa, no ano seguinte (sala A, n.º 41).


Utilizada para abrir o cortejo, o grandioso estandarte, com quatro metros de altura, segue a forma tradicional, com a parte inferior recortada em duas abas triangulares. É de damasco vermelho lavrado com ramagens e possui remates de galão, franja e borlas douradas. Ao centro, em cada um dos lados, possui um medalhão oval bordado em relevo a fio de ouro e prata. No anverso, representam-se as armas da inquisição: uma cruz ao centro, com uma espada à esquerda e uma oliveira à direita e, no reverso, a figura de Pedro de Arbués, o inquisidor provincial do Reino de Aragão assassinado em plena Catedral de Saragoça pelos cristãos novos em 1485, ostentando a palma do martírio.


Circundando o medalhão, uma notável cartela barroca com enrolamentos de acanto encimada, no centro superior, por um penacho, identifica, muito provavelmente, um bordado realizado na primeira metade do século XVIII.

Celso Mangucci

BIBLIOGRAFIA
Catálogo Illustrado da Exposição Retrospectiva de Arte Ornamental Portuguesa e Espanhola. 2 volumes. Lisboa: Imprensa Nacional, 1882

ESPANCA (1966), Túlio, Inventário Artístico de Portugal, VII, Concelho de Évora, 2 volumes. Lisboa: Academia Nacional de Belas-Artes, 1966.

PEREIRA (1948), Gabriel, Estudos Eborenses, 3 volumes (2ª edição). Évora. Edições Nazareth, 1948.