Reunida por Francisco Eduardo Barahona Fragoso (1845-1905), a Colecção Barahona de escultura deve ser entendida no âmbito de uma prática mas alargada e diversificada de aquisição e encomenda de objectos artísticos. O casal Francisco Barahona e Inácia Angélica Fernandes Barahona (1844-1918), dos mais destacados membros da sociedade eborense, protagonizaram, nas duas últimas décadas do século XIX, de facto, uma série de iniciativas conformes aos padrões de vivência sócio-cultural dos seus pares europeus. Iniciativas que visaram tanto o enriquecimento do seu espólio pessoal como introduzir alguns melhoramentos e benfeitorias na cidade que habitavam. Estas incluíram a decoração mural do átrio da sua residência (com o fresco Reconquista de Évora aos espanhóis pelo conde de Vila Flor em Junho de 1663) pelo pintor simbolista António Carneiro (1872-1930), a encomenda da famosa baixela Barahona a Columbano Bordalo Pinheiro em 1908, o apoio ao restauro de importantes monumentos históricos, como a Igreja de S. Francisco, o financiamento do Teatro Garcia de Resende e a edificação do Asilo da Infância Desvalida.

 

É neste contexto que devemos entender a uniformidade estética do acervo da Colecção Barahona de escultura, dominada pelas convenções do “bom-gosto” naturalista e da École de Beaux-Arts de Paris, de raiz romântica e pendor suavemente clássico e literário.

 

Comecemos pelas temáticas, das que mais se enquadravam nos limites impostos por uma sensibilidade burguesa: cenas de costumes, pequenos acidentes do quotidiano, alegorias, bustos escritores e políticos mais ou menos contemporâneos e de personalidades históricas. Nelas manifestam-se os valores sociais dominantes no advento do século XX: uma moral que devia ser firme mas discreta, uma vivência sentimentalista dos quotidianos familiares, opiniões políticas liberais e um nacionalismo que assentava no culto da História, na afirmação da importância da Cultura em geral para o progresso do país e na idealização do modo de vida rural.

 

A escolha dos autores foi consentânea com estes valores: Vítor Bastos (1829-1894), António Alberto Nunes (1838-1912), José Simões de Almeida (1844-1926), António Augusto da Costa Mota (1862-1930), António Teixeira Lopes (1866-1942). Todos detinham uma formação académica sólida, feita nas academias de Belas-Artes de Lisboa ou do Porto, onde alguns vieram a ser professores, e depois em Paris, enquanto pensionistas do Estado ou com a subvenção de particulares.

 

O corolário deste processo de consumo de arte como vector de uma prática social de elite foi a oferta da colecção de escultura, que agora se mostra, e de algumas pinturas à Biblioteca Pública de Évora, por disposição testamentária de 1905. O testamento postulava porém que a entrega destes objectos só teria lugar depois da morte da sua mulher, pelo que a doação só se efectivou em 1923, e já não à Biblioteca, mas sim ao Museu de Évora, criado entretanto, em 1915.

 

Paulo Simões Rodrigues